Dia 19 de maio é comemorado o Dia Mundial do Médico de Família e esse texto, de uma médica de família do Sistema de Saúde Pública da Inglaterra, reflete o cotidiano desse profissional.
A tradução é livre e o texto original pode ser lido aqui .
Eu fui a uma reunião da
turma da escola há alguns anos. Quando a conversa inevitavelmente se voltava
para trabalho, e o que cada um estava fazendo agora, o meu era, sem dúvida, o
menos emocionante. “Você é médica? Qual especialidade?” Após a décima vez, eu
queria mentir e dizer que eu era cirurgiã fetal, operando minúsculos bebês
antes do nascimento, na crista da tecnologia e do glamour da medicina, ou uma
pesquisadora inovadora, prestes a descobrir a cura do câncer. Talvez uma cirurgiã
neurológica, ou uma consultora de cuidados intensivos?
Encontrei-me dizendo
“sou apenas uma médica da família”, e então me escondi num canto. Não há
suficientes médicos da família. Médicos recém-graduados não estão fazendo
treinamento na área. No estado atual do Sistema Nacional de Saúde, há muita
mídia negativa sobre o futuro da clínica geral, e jovens médicos a vêm como uma
especialidade insegura. Eles não sabem o que acontecerá em cinco ou dez anos.
Eles apenas sabem que a imprensa nos odeia, os políticos balançam a cabeça e
depois nos ignoram, e isso os tem afastado da área.
Ser um médico da família
não tem nada a ver com glamour. Não tem nada a ver com equipamentos de tecnologia
de ponta, não tem nada a ver com pesquisas avançadas ou com gritar “me dê um
pouco de paracetamol, rápido!” Há muito pouco drama. Tem a ver com o desafio de
lidar com tudo em um curto espaço de tempo; com a habilidade de ter uma conexão
instantânea com um paciente que você talvez jamais tenha encontrado antes. Tem
a ver com pessoas comuns, vivendo vidas comuns e problemas que as preocupam. Se
você acha que está acima de tratar hemorróidas, indigestão, candidíase, eczema
então este não é trabalho para você. Se você entende que, por menos glamorosos
que sejam esses problemas e seus tratamentos, uma pessoa pode sofrer por causa
deles e isso pode transformar suas vidas em vidas miseráveis, então talvez
seja. Eu sou uma médica da família e posso sanar esses problemas. Eu posso
resolvê-los para aqueles pacientes. E, embora pouco sexy, ou glamoroso, isso
faz diferença para meus pacientes. Portanto, eis aqui um exemplo de pacientes
que preenchem meu dia, para os quais eu faço a diferença. Normalmente por meio
de pequenas ações, mas ações que são importantes para eles, e me ajudam a
lembrar por que eu faço este trabalho.
A senhora de 70 anos que
eu tratei de uma infecção urinária – uma coisa simples de resolver. Na semana
seguinte ela me traz uma fatia de bolo, que ela guardou de uma festa de
aniversário de uma amiga, para a qual ela se sentiu suficientemente bem para ir
e me deu muito mais crédito do que eu mereço.
A mãe que chora de
alívio quando eu digo a ela que ela não está fazendo nada de errado com seu
novo bebê. Que bebês não dormem à noite, que ela não vai arruiná-lo por dar-lhe
colo, e que ela está indo brilhantemente bem com seu bebê de oito semanas.
O veterano de guerra que
veio na semana passada com seu filho, e sentiu que eu fui suficientemente
acolhedora para que ele retornasse esta semana, admitindo que ele tem pesadelos
e lembranças constantes do seu tempo de serviço, mas que jamais havia contato a
ninguém.
A senhora de meia-idade
com sintomas de menopausa. As amigas dela falam sobre ondas de calor, mas ninguém
mais reclama de dor na relação sexual. Ela está preocupada pois acha que não é
normal. Nós conversamos sobre os tratamentos disponíveis para ajudá-la.
O envergonhado garoto de
17 anos com acne. Eu disse a ele que posso tratar e que ele não precisa mais
lidar com isso. Eu sei que isso fará uma grande diferença.
O homem convencido de
que tem câncer – quando eu lhe conto que é um simples nódulo de gordura, ele
parece pronto pra chorar.
Disseram à garotinha de quatro
anos “seja boazinha ou a doutora vai lhe dar uma injeção”. Eu gastei 15 minutos
convencendo-a de que não o faria. Ela correu pra me abraçar ao final da
consulta.
A visita da enfermeira à
senhora com dificuldade de piscar o olho. “Eu ficava irritada com todos aqueles
velhos sentados olhando pra mim” disse-me ela, piscando. Tem 98 anos.
O casal de 14 anos de
idade que procura por contraceptivos. Nós conversamos sobre todas as opções,
riscos e benefícios. Ambos entendem a decisão que estavam tomando, e eu os encorajo
a voltarem a qualquer momento caso eles tenham mais dúvidas.
A senhora idosa que
chega com simples manchas na pele. Quando eu pergunto se há alguém que possa
ajudá-la a passar cremes em suas costas, ela chora. Ela fala sobre seu marido.
Ele morreu há dois anos atrás, e ela sente como se já devesse ter superado
isso. Ela se sente horrível por ainda falar dele para familiares e amigos que
já superaram isso e ela ainda não. Eu digo que ela jamais vai realmente superar
isso. Eu não tenho nada a oferecer a não ser ouvir.
O homem que caminha com
dificuldade após pisar em um vidro quebrado na noite anterior. Ele tem muito
medo de hospitais para ir até lá por causa de pequenos ferimentos e procurar a
emergência, mesmo sabendo que deveria ter ido. Enquanto eu gentilmente removo o
vidro ele se encolhe o tempo todo e me agradece efusivamente por não fazê-lo ir
ao hospital. Minha tentativa de curativo é cômica mas ele sai emocionado.
O abcesso que se rompe
enquanto eu o trato – alívio imediato ao paciente. Estranhamente satisfatório
para mim. Os parentes que me dão um livro de poesia ao final de outra visita,
porque eles acham que eu vou apreciar os sentimentos que estão expressos nele.
O cartão de
agradecimento do paciente viciado em tranquilizantes. Quanto nos encontramos
pela primeira vez, eu me recusei a receitar qualquer um a mais e o fiz
concordar com uma redução gradual. Achei que ele jamais voltaria. Ele jamais
disse obrigado, mas se sentiu capaz de escrevê-lo e me dizer o quanto se sente
humano novamente.
A professora
comprometida, lutando contra uma profunda depressão e que se recusava a se
afastar por medo de deixar os alunos desassistidos. É uma das poucas ocasiões
em que eu uso o “eu sou seu médico e estou lhe dizendo, você precisa de uma
licença”. É paternalista e eu odeio fazê-lo, mas algumas vezes é necessário. Um
mês depois ela está muito melhor e volta ao trabalho, entusiasmada como sempre.
O homem com pressão
alta, que aceita quatro novos medicamentos que eu tenho que tentar para
normalizar a pressão. Eu lhe dou os efeitos colaterais de cada um dos
medicamentos e após dois meses nós estamos de volta ao início. Como eu me sinto
culpada, ele diz “Não se preocupe Doutora, você fez o seu melhor. O que mais você
poderia fazer?” Eu poderia abraçá-lo.
A moça de 19 anos com
constipação, assustada por ter que vir a mim. Eu conto a ela que é o que eu
mais gosto de tratar, porque é tão fácil de resolver. Ela parece aliviada à
medida que eu conto sobre as opções.
O morador de rua quem eu
tenho lutado infinitamente para ajudar, mas que é constantemente dispensado por
não conseguir marcar uma consulta – o cartão que ele me traz significa mais do
que tudo que já recebi de qualquer paciente. Eu sei o quanto foi difícil para
ele pensar nisso, comprar o cartão, conseguir uma caneta, escrever o seu e o
meu nome, e trazê-lo a mim.
Todos os pacientes em
meu consultório, que está 45 minutos atrasado, que não resmungam e ainda me
dizem que está tudo bem, eles entendem que o dia está cheio. Não há nada mais estressante para mim, mas há
pacientes com os quais eu não posso ter pressa. Eu não vou dispensar os pais em
luto porque perderam um bebê só para manter minha agenda. Eu não posso fazer a
ambulância vir mais rápido para o homem com dor no peito. Eu não tenho controle
sobre o tempo que leva para o hospital atender o telefone e me colocar em
contato com o médico com o qual eu preciso falar para pedir uma opinião. Eu não
me recuso a ver um paciente com o qual minha enfermeira está preocupada. Eu
faço o melhor que posso.
Essas são as pequenas
coisas que preenchem meu dia. São coisas além de toda a política, as manchetes
e a negatividade. Breves amostras de dez minutos de duração das vidas das
pessoas onde eu tento fazer uma pequena diferença. A próxima vez que eles
ouvirem o quão temerário pode ser consultar com um médico da família, espero
que eles lembrem nossa consulta de hoje, e pensem em mim de um modo um pouco
mais simpático. Afinal de contas, pode ser sim um trabalho glamoroso. Quando se
junta todas as consultas, eu potencialmente fiz a diferença para quase 40
pacientes hoje. Poucas pessoas podem dizer isso.
Dr Zoe Norris, médica de família do Sistema Nacional de Saúde do
Reino Unido
*(Tradução livre)